Botequim ordinário, onde se vendia o café a dez reis cada xícara.

17
Set 10

ELEGIA PARA UMA GAIVOTA

 

Morreu no Mar a gaivota mais esbelta,

a que morava mais alto e trespassava

de claridade as nuvens mais escuras com os olhos.

 

Flutuam quietas, sobre as águas, suas asas.

Água salgada, benta de tantas mortes angustiosas, aspergiu-a.

E três pás de ar pesado para sempre as viagens lhe vedaram.

 

Eis que deixou de ser sonho apenas sonhado.

-: É finalmente sonho puro,

sonho que sonha finalmente, asa que dorme vôos.

 

Cantos de pescadores, embalai-a!

Versos dos poetas, embalai-a!

Brisas, peixes, marés, rumor das velas, embalai-a!

 

Há na manhã um gosto vago e doce de elegia,

tão misteriosamente, tão insistentemente,

sua presença morta em tudo se anuncia.

 

Ela vai, sereninha e muito branca,

E a sua morte simples e suavíssima

é a ordem-do-dia na praia e no mar alto.

 

 

In "Campo Aberto" - 1950

 

 

 

 

 

publicado por Café de Lepes às 00:50

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