Botequim ordinário, onde se vendia o café a dez reis cada xícara.

07
Out 11

LISBOA

 

No bairro de Alfama os

eléctricos amarelos cantavam

nas calçadas íngremes.

Havia lá duas cadeias. Uma

era para ladrões.

Acenavam através das grades.

Gritavam que lhes tirassem o

retrato.

 

"Mas aqui", disse o condutor

e riu à socapa como se

cortado ao meio,

"aqui estão políticos". Vi a

fachada, a fachada, a fachada

e lá no cimo um homem à

janela,

tinha um óculo e olhava para o

mar.

 

Roupa branca no azul.

Os muros quentes.

As moscas liam cartas

microscópicas.

Seis anos mais tarde perguntei

a uma senhora de Lisboa:

"será verdade ou só um sonho

meu?"

 

* Prémio Nobel da Literatura 2011

 

Selecção de Poemas - Tomás Salavisa

publicado por Café de Lepes às 19:23

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