LISBOA
No bairro de Alfama os
eléctricos amarelos cantavam
nas calçadas íngremes.
Havia lá duas cadeias. Uma
era para ladrões.
Acenavam através das grades.
Gritavam que lhes tirassem o
retrato.
"Mas aqui", disse o condutor
e riu à socapa como se
cortado ao meio,
"aqui estão políticos". Vi a
fachada, a fachada, a fachada
e lá no cimo um homem à
janela,
tinha um óculo e olhava para o
mar.
Roupa branca no azul.
Os muros quentes.
As moscas liam cartas
microscópicas.
Seis anos mais tarde perguntei
a uma senhora de Lisboa:
"será verdade ou só um sonho
meu?"
* Prémio Nobel da Literatura 2011
Selecção de Poemas - Tomás Salavisa