Botequim ordinário, onde se vendia o café a dez reis cada xícara.

16
Set 10

O Cardeal Cerejeira e a Igreja Católica impuseram os modelos de fatos de banho, afirmava-se, nesses tempos tão longínquos. Os homens não podiam mostrar o peito, usavam fatos com alças e uma espécie de resguardo a cobrir a parte anterior  do calção, que não podia ser curto. As mulheres vestiam um tipo de combinação com um saiote servindo de reforço. Não existia o buraco do ozono e, em consequência, não havia preocupações com os excessos de exposição solar. Tomavam-se, por conselho médico, prolongados banhos de sol, nas partes mais íntimas do corpo, dentro de barracas fechadas mas sem tecto. Usava-se óleo de coco ou um creme de nome Bronzaline, apenas com o propósito de, mais rapidamente, se conseguir o tom bronzeado que tanto orgulho dá aos banhistas, como então se denominavam os frequentadores das praias. Não havia nadadores-salvadores, e também se morria no mar, mas banheiros, que entre muitas funções, para além de salvar afogados, levavam as crianças a tomar banho e ajudavam os adultos, melhor dito as adultas, a enfrentar as ondas. O maldito peixe aranha, com a sua barbatana negra, atacava sem piedade os banhistas, obrigando-os, para acalmar a dor, a recorrer aos serviços do posto médico da praia. Os adultos jogavam volleyball e as crianças divertiam-se jogando "ao prego". Comiam-se barquilhos e bolacha americana que homens e mulheres, impecavelmente vestidos de branco, com as suas imensas latas às costas, vendiam ao longo do areal. Os rádios transístores ainda não existiam, mas um sistema de altifalantes, espalhado pela praia, oferecia música, notícias, informações úteis e, claro está, publicidade, mas num tom tão suave, que muitas vezes o barulho do rebentamento das ondas tornava inaudível. Na maré baixa, percorrendo a areia junto ao mar, era possível encontrarem-se conchas belíssimas, búzios extraordinários e estrelas do mar que não haviam conseguido acompanhar as ondas no seu regresso ao oceano.  À uma hora começava a debandada geral. Ia-se a pé para almoçar em casa.  O regresso começava a verificar-se por volta das quatro. A praia tinha um horário quase tão rígido como o de um emprego. As férias, geralmente, duravam um mês e a época estival estendia-se do início de Julho a 15 de Outubro. Banhistas de alforge denominavam-se os que vinham em finais de Setembro/Outubro, geralmente após terminados os trabalhos agrícolas.  A guerra grassava com grande ferocidade por toda a Europa e havia-se estendido a outras zonas do Globo. Era o tempo dos refugiados, maioritariamente judeus de diversas origens, franceses, belgas, alemães, holandeses. Aguardavam viagem para a América. Faziam uma vida à parte, apreciavam a praia e deixavam-se bronzear pelo nosso sol. As mulheres fumavam, o que se tornava escandaloso para os nossos costumes.

Mas esta não é a praia deste tempo. Agora há biquinis, quando não corpos nus, multidões que se comprimem em reduzidos areais. Luta-se por uma nesga de areia onde seja possível estender uma toalha e espetar o cabo de um chapéu de sol. O astro-rei passou a ser um inimigo insidioso, com quem é preciso usar as máximas cautelas. E já não se fazem férias de trinta dias; duas semanas, uma semana e já é óptimo. Não há mais búzios, conchas e estrelas do mar.

publicado por Café de Lepes às 12:24

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